| depoimentos

Helena Solberg | Marcio Debellian


HELENA SOLBERG, diretora

“O filme construiu seus fundamentos baseado em 18 entrevistas que fizemos com músicos, poetas, compositores e pensadores que ofereceram suas idéias e opiniões sobre a trajetória da musica popular brasileira nas últimas seis décadas. São artistas e criadores cada um com um processo individual muito especial. Todos nos revelaram suas descobertas através da literatura e da poesia que eventualmente foram fonte de inspiração em seu processo criativo.

Para nossa pesquisa tivemos como coordenador o Prof. Julio Diniz, Diretor do departamento de letras da PUC e seus colaboradores Heloisa Tapajós e Frederico Coelho. Além dos poetas e compositores, considero o que chamo dos nossos “gurus” que iluminaram com suas idéias o projeto: José Miguel Wisnik, Antonio Cícero e Luís Tatit, entre outros.

Wisnik considera o fato de o Brasil não ser uma cultura, por assim dizer, “letrada” e, sim, muito mais oral que compensamos o que poderia ser uma deficiência passando muito diretamente dos meios orais para o rádio e a televisão, para os meios audiovisuais. A música popular brasileira tem um papel muito importante de manter viva a literatura com a qual ela dialoga. Começamos com um conceito e ao longo do fazer fomos descobrindo outros caminhos.

Marcio Debellian, um amigo, me procurou com a proposta de tentarmos fazer um documentário sobre a relação entre música e poesia no Brasil. Este projeto marca o encontro de três linguagens diferentes e de certa forma complementares: o cinema, a literatura e a música. Como promover o ‘diálogo’ destas três formas de expressão na narrativa do filme foi um grande desafio.

É muito curioso que, com um certo distanciamento, vejo que o Palavra (En)cantada segue uma linha que tenho perseguido em meus outros trabalhos: focalizar personagens que possam iluminar com suas memórias e impressões questões que têm a ver diretamente com nossa identidade traçando um mapa dos valores sociais pelos quais nos pautamos. Acho que o filme, mais do que sobre a música e a literatura, é um olhar abrangente sobre nossa cultura.

A literatura foi essencial para a minha formação. Fiz a faculdade de Neolatinas na PUC. Quando entrei eu vinha de muitos anos de colégios franceses onde fui fortemente exposta à literatura francesa. A universidade é onde descubro a riqueza da nossa literatura (incluindo a Latino Americana) e isso foi um deslumbramento para mim. A literatura cria imagens dentro de nós que pertencem só a nós mesmos. Seria como um arquivo privado que consultaríamos o resto da vida. Erza Pound disse: ‘A função da literatura é nutrir de impulsos’.”

MARCIO DEBELLIAN, autor do argumento e co-produtor


“O impulso para realizar o Palavra (En)cantada vem de gostar demais de música brasileira. Vem também do fato de eu fazer parte daquele grupo de pessoas que pode lembrar da sua história pessoal pelo que ouviu e cantarolou em cada época da vida e, especialmente, pela música ter despertado em mim tanto interesse por poetas e escritores que nunca havia lido.

Hoje, quando vejo o filme pronto, relembro momentos da minha memória afetiva, como quando aos 8 anos de idade, no banco de trás do carro do meu pai, ouvia Matita Perê, de Tom Jobim, sem absoluta noção de que aquilo era inspirado no universo de Guimarães Rosa. Lembro-me das explicações da minha mãe sobre as letras de Chico Buarque e Caetano Veloso: “o cálice” que era “cale-se” e a poesia concreta das esquinas de Sampa. Recordo a ordem das músicas no caderno de violão da minha irmã que iam de Lupicínio Rodrigues a Vinicius de Moraes, e das noites mal-dormidas na casa do meu avô, que até hoje só dorme de rádio ligado.

Remeto-me à descoberta de Antônio Cícero, em 1994, que chegava até mim pelo disco “O Chamado” da Marina, que trazia dois poemas primorosos, “Guardar” e “Eu vi o Rei Passar”, este último presente no filme. Viro cúmplice do depoimento de Adriana Calcanhotto, que diz ter chegado a Fernando Pessoa ainda adolescente via um disco de Maria Bethânia, e penso no meu espanto de ver, pela primeira vez, nossa grande intérprete em cena declamando o poeta português, no espetáculo Imitação da Vida. E como não mencionar a dificuldade que foi decorar a letra do Ciruladô de Fulô, que eu achava que era do Caetano, mas é de Haroldo de Campos?

O Palavra (En)cantada foi meu primeiro trabalho com cinema, e fonte de grande aprendizado em diversos aspectos. Foi uma grande oportunidade trabalhar com tantas pessoas especiais que se juntaram a este projeto, como nossos pesquisadores Júlio Diniz, Fred Coelho e Heloísa Tapajós, e a grande montadora e roteirista, Diana Vasconcellos. Agradeço a Helena Solberg e David Meyer por terem embarcado neste sonho e atuado decisivamente em sua realização.”  


Adriana Calcanhotto
Lenine
Tom Zé
Martinho da Vila
Maria Bethânia
Chico Buarque
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